As limitações impostas aos funcionários estão em todas empresas, desde as tradicionais até as mais flexíveis. Mas restrições sem coerência podem resultar em insatisfação e queda de produtividade
“No ambiente de trabalho, o empregador é soberano.” A enfática afirmação do advogado trabalhista Rafael Macedo é uma reflexão sobre quem tem o poder de ditar as regras dentro das empresas. Seja em uma companhia com o perfil mais flexível ou em uma mais tradicional, a verdade é que todas precisam impor aos funcionários restrições que delineiem cotidianamente a dinâmica de trabalho. Até aí, tudo bem. A situação complica quando alguma dessas limitações desagrada os empregados ao ponto de refletir na produtividade e até na saúde deles.
De acordo com a diretora de Relações Humanas da Insight, Acsa Vasconcellos, a ressalva mais comum é em relação ao uso da internet. “Feita de forma descontrolada, a utilização dessa ferramenta pode causar um congestionamento na rede e dispersar as pessoas no trabalho, diminuindo o rendimento delas”, explica. Por outro lado, segundo Acsa, a restrição pode levar ao refreamento da criatividade e de novos conhecimentos potencialmente adquiridos por meio de pesquisas on-line.
Ainda assim, há setores que defendem ser essencial limitar a navegação na web. Na Cast, empresa que desenvolve tecnologia da informação para bancos, o acesso é vetado por questões de segurança. “São informações muito importantes. Fazemos de tudo para evitar invasores. Bloqueamos, inclusive, a utilização de pendrives”, explica Daniela Oliveira, coordenadora de treinamento de recursos humanos.
E aos funcionários que insistem em descumprir as regras, um alerta: eles podem estar sendo monitorados. Contanto que haja um aviso prévio, a empresa tem total liberdade de acessar e até gravar as ações dos empregados no telefone e na internet. “Se o bem utilizado é corporativo, o chefe pode privar ou saber o proveito que o funcionário está tirando. A infraestrutura da empresa é feita para fornecer o trabalho, e apenas isso”, argumenta o advogado Rafael Macedo.
Tempo cronometrado
Uma pausa para o lanche, para fumar um cigarro ou apenas para esfriar a cabeça. A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) estipula um descanso obrigatório de 15 minutos em uma jornada de seis horas ou de pelo menos uma hora para a de oito. É comum, no entanto, que esse intervalo seja utilizado pelos trabalhadores para a alimentação e que, por isso, torne-se necessário ultrapassá-lo por causa de outras necessidades. E é nesse ponto que podem surgir as divergências entre empregadores e funcionários.
O presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Roberto Cardoso, é favorável à imposição de limites, desde que feita com ressalvas. “Os trabalhadores não podem abusar, mas deve-se levar e consideração que dar um tempo para tomar café é bom até para estimular a criatividade. Ninguém é máquina”, defende.
Mas a opinião do presidente do CFA não é uma unanimidade nas corporações. A analista de sistemas Mariana*, 30 anos, conta que, na empresa onde trabalhava, cada minuto extra devia ser compensado. “Se eu fosse tomar um café e conversasse com um colega, ainda que sobre o trabalho, eu era advertida. Lá, trabalho era apenas se eu estivesse sentada na frente do computador.”
A polêmica é ainda maior quando levada para o setor de telemarketing. Com uma rotina de seis horas diárias, os operadores têm 15 minutos para o lanche e o mesmo intervalo para a prática de ginástica laboral. Para usar o banheiro, os empregadores disponibilizam aos funcionários uma média de cinco minutos para toda a jornada. Caso esse prazo seja ultrapassado, acontece algum tipo de punição.
Se levada em conta a média de dois minutos por saída, os operadores de telemarketing podem, no máximo, ir ao banheiro duas vezes por dia. “O pior é que os chefes estimulam os profissionais a beber água, já que falam bastante”, indigna-se o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações (Sinttel), José Goudim. “Isso é tão ruim que já nos chegaram casos de funcionários não conseguiram aguentar e urinaram na cadeira”, lamenta.
Segundo o Tribunal Superior do Trabalho (TST), as empresas de call center podem controlar o uso do banheiro e exigir justificativas para o uso excepcional. Nesse caso, o empregador pode pedir uma explicação, mas não proibir a utilização fora dos limites estabelecidos. Caso o funcionário se sinta prejudicado, pode entrar na Justiça por dano moral. “Mas tem que ser comprovado algum efeito negativo”, aponta o advogado Rafael Macedo.
Nem tudo são flores
Com a proposta de tornar o ambiente de trabalho relaxante, os sócios da Absoluto Comunicação optaram por levar o lazer para dentro da empresa de forma nada convencional. A ideia de criar dois gatos da raça persa nas dependências do escritório surgiu quando um pet shop anunciou uma nova ninhada. Os proprietários, apaixonados pelos animais, não viram problema em misturá-los aos funcionários e clientes.
“Não me preocuparia se os outros trabalhadores quisessem trazer o animal para cá”, comenta a sócia Lívia Pretti, ressaltando que faz parte do DNA da Absoluto ser flexível. Na política da empresa, o manual de conduta fica subentendido: as regras estão baseadas no bom senso de cada um. “Trabalhamos com metas. O que importa é o cumprimento delas”, acrescenta Lívia.
O efeito da maleável é facilmente percebido. Os funcionários, segundo a sócia, sentem-se mais motivados e felizes no emprego. Ainda assim, algumas limitações são inevitáveis. “É claro que o telefone e até os programas de comunicação virtual podem ser utilizados. Mas não deve ser o tempo inteiro, se não o trabalho não rende”, explica.
Aos fumantes, a ressalva é um pouco mais rígida. “Para ser sincera, eu prefiro que não fumem. Já tive um funcionário que descia sete vezes por dia para fumar. Isso interrompe o raciocínio”, conta Lívia. Na opinião dela, a fórmula de sucesso para evitar abusos é saber escolher profissionais que saibam respeitar os limites e que, mesmo em um ambiente tranquilo, não confundam o trabalho com o domicílio.
*Nome fictício a pedido da entrevistada
COMPENSAÇÃO FINANCEIRA
Quando o intervalo obrigatório não for concedido, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) determina que o empregador pague ao período correspondente com um acréscimo de, no mínimo, 50% sobre o valor da remuneração do salário/hora.
Algumas restrições
Uso do fone de ouvido
“No meu trabalho, de gerenciamento de arquivos, estávamos acostumados a ouvir música com fone de ouvido. Gostava porque ficava mais focada e não ouvia o que as outras pessoas estavam conversando. Mas entrou um novo gerente que proibiu o uso dos fones. O argumento principal era que, caso houvesse um incêndio, já que tinha muito papel, nós não iríamos ouvir. Ele também dizia que atrapalhava a concentração e que poderia pegar mal para os clientes.”
Álica Dias, 25 anos, consultora em arquivos
Uso do banheiro
“Trabalhei por dois anos e meio como operadora de telemarketing. No contrato e no treinamento, explicaram-nos que só poderíamos utilizar o banheiro durante cinco minutos, em uma jornada de seis horas. De tanto segurar para ir ao banheiro, tive uma infecção urinária. Mas não adiantava reclamar. Para a empresa, assim que eu saísse eles já tinham alguém para me substituir.”
Ana Paula Santos, 25 anos, estudante
Tempo para o lanche
“A questão do tempo de lanche era levada a sério. Se a padaria estivesse cheia e eu ultrapassasse os 15 minutos, era punida. O mesmo acontecia na pausa para o café. Se eu fosse tomar um café e conversasse com um colega, ainda que sobre o trabalho, eu era advertida. Lá, trabalho era apenas se eu estivesse sentada na frente do computador”.
Mariana*, 30 anos, analista de sistemas
Uso da internet
“Não há restrições quanto aos sites em que eu posso entrar. Por outro lado, sei que o meu gerente recebe uma vez por semana um relatório no qual consta todos as páginas virtuais nas quais entrei e a duração da navegação. Acabo não usando a internet com medo de pegar mal.”
Fernando Alves, 32 anos, programador de software
Uso do telefone
“Antes, o telefone corporativo era liberado para qualquer tipo de ligação. Admito que fazia ligações pessoais, principalmente para os meus filhos. Apesar da reclamação de muitos colegas, não vi problemas quando o telefone foi bloqueado e passei a usar meu aparelho celular para as ligações particulares.”
João Augusto Torres, 51 anos, administrador
Cigarro
“Antes eu tinha que fumar, pelo menos, de duas em duas horas. Quando me movimentava para sair da loja, as pessoas já me olhavam de cara feia e a gerente costumava me perguntar onde eu estava indo. Às vezes, mentia dizendo que ia ao banheiro. Uma vez a gerente me seguiu e fiquei totalmente constrangida. A pressão foi tanta que passei a fumar menos. Agora, saio no máximo uma vez para fumar, e meio cigarro.”
Alinne Silva, 28 anos, vendedora