Estimular a competitividade entre os funcionários com prêmios e outros agrados pode ser uma forma eficiente de melhorar o desempenho deles. Mas é preciso cuidado para não extrapolar os limites da concorrência saudável
Estratégia recorrente entre as empresas que buscam políticas de motivação extra entre seus funcionários, a política de estimular competições internas entre os empregados pode ser eficiente em muitas situações. Mas há quem considere a tática perigosa e até cruel. Os empresários, na maioria das vezes, acreditam que a implementação de campeonatos tem efeito produtivo e benéfico para todos os envolvidos. Os especialistas em psicologia do trabalho, no entanto, argumentam que a pressão por resultados satisfatórios pode afetar a saúde dos funcionários e, por consequência, gerar um resultado negativo.
O proprietário da Cotton Up, Hélvio Tarcísio, 59 anos, diz que gosta de criar disputas entre os profisionais de suas duas lojas de roupas. Mas, de acordo com ele, não há um plano de estratégia ou de periodicidade para colocar as atividades em prática. “Não tem regra fixa. Quando sinto que é necessário, invento alguma coisa”, conta. Porém ele acredita que banalizar a tática pode ter um efeito contrário. “Se vira algo permanente, acaba enjoando e perde a graça”, acredita.
A gerente executiva do Rayuela Bistrô, Raquel Pacheco, 28 anos, concorda com Hélvio. “Nós organizamos pequenas competições desde que o café existe. É uma boa solução para quando temos um estoque parado ou uma oferta boa de algum produto. Estimulamos a concorrência entre eles para ver quem vende mais. O vencedor ganha um prêmio, que varia entre folgas e bens”, revela. Mas ela ressalta: se as competições se tornam recorrentes, podem “viciar” o funcionário, que pode passar a trabalhar bem apenas quando houver alguma premiação.
Quem gosta da estratégia é Renato Castelo Branco, 31, funcionário do Rayuela há quase quatro anos. Ele já ganhou diversas bonificações nessas competições e, inclusive, levou o título de melhor funcionário de 2008. Curso de vinhos, aumento de salário e dias de folga já foram algumas das recompensas que recebeu pelos os esforços extras. “Essas estratégias funcionam de formas diferentes com cada pessoa. Comigo dá certo porque estou sempre me esforçando. Quando surge isso, é uma motivação a mais, mas não a razão principal para um bom trabalho”, garante . “Aqui no Rayuela, funcionam porque o clima é bom. A competição tem de ser saudável”, completa. E Raquel endossa o funcionário: “O saldo é sempre positivo”.
Para Antônio Carminhato, especialista em recursos humanos e presidente do Grupo Soma, a competitividade entre trabalhadores pode também ser um meio de conhecer melhor o perfil de cada funcionário. “É uma maneira de as empresas reconhecerem os melhores profissionais e criarem uma disputa saudável entre eles”, pontua. E completa: “Pesquisas recentes mostram que a remuneração não é o primeiro objetivo ou o motivo de permanência do profissional na empresa. Está sempre em terceiro ou quarto lugar”. De acordo com Carminhato, a possibilidade de crescimento e um bom ambiente de trabalho são mais importantes que um pequeno aumento no contracheque.
O consultor avalia que prêmios em dinheiro pedem uma atenção maior por parte do empregador, já que a legislação trabalhista tributa situações como essa. “Um prêmio como o reconhecimento do profissional com uma foto pode ter um impacto psicológico maior no interessado”, considera.
Quadro renovado
Para que a disputa não se torne negativa, Carminhato sugere uma constante supervisão do que está acontecendo. “Se o responsável não ficar atento, o resultado pode ser o contrário do que o é esperado e diminuir a produtividade da equipe”. O consultor afirma que essas atividades permitem também uma renovação do quadro de funcionários, buscando um melhor rendimento dentro da empresa.
Gerente de RH da Sama, eleita em 2010 uma das 10 melhores empresas para se trabalhar no Brasil, Moacy de Melo acredita que uma forma de evitar os eventuais problemas, a companhia precisa pensar no bem-estar antes de qualquer outra coisa. Para evitar a competição exagerada e insalubre, ele conta que a Sama trabalha com a fixação de metas para que qualquer pessoa que as alcance receba uma bonificação, que não necessariamente é em dinheiro. “Desse modo, acreditamos que o funcionário é levado a superar seus próprios limites.”
Segundo Raquel Pacheco, essa é a forma que traz mais resultados. “Para adicionar um pouco de brincadeira nisso, estabelecemos prêmios surpresas. Assim, quem supera a meta não sabe com certeza o que vai ganhar”, explica. Mas Antonio Carminhato adverte que isso não necessariamente elimina a competitividade: “Quem passa a meta, vai querer saber se foi mais longe do que o colega que também cumpriu o objetivo”, pondera.